7.1.10

O escultor de areia

Tullio Andrade


Numa dessas noites de inverno, um homem viu passar diante de seus olhos a mais celeste imagem: uma mulher cujo nome ele não sabe, cujo rosto nunca viu, cuja vida não conhece. E seu encanto foi imediato. Seus olhos não se desligaram um instante sequer. Até que ao fim da noite, quando ela já se despedia de todos, eis que seu olhar encontra o dele. Um breve instante, que não deve ter durado nem o tempo de um piscar, mas que se estendeu por séculos de solidão e lágrimas que desde então não se derramariam mais.

Na manhã seguinte ele levantou bem cedo e, depressa, correu até a praia; e antes mesmo que o sol abrisse seu olhar luminoso sobre o mundo que ainda dormia, ele começou seu trabalho. Sobre um pequeno monte de areia foi esculpindo sua mais sublime obra. Aos poucos foi tirando os excessos, moldando as formas, dando vida à figura mais bela que ele já havia criado.


E quando o sol já havia cumprido metade de sua jornada diária, ele, enfim, terminou. E por alguns momentos permaneceu imóvel, silencioso, contemplativo... E não resistiu, quase que involuntariamente, ajoelhou-se e suavemente tocou o rosto da mulher que ele esculpiu. E enquanto seus dedos desenhavam carinhos ternos naquela ríspida face de areia, uma lágrima lhe rolou no rosto e desapareceu aos pés de sua escultura.


O homem então, ergueu-se e se encaminhou para sua casa. Mas após alguns passos, uma mão fria e áspera lhe freou. E ao vira-se ele não pode acreditar no que seus olhos lhe mostravam. A sua escultura, a mulher mais linda que já havia esculpido adquiriu vida e estava ali parada diante dele. As palavras fugiram. A consciência também. Eis que então, ela o beijou, e a rispidez de sua boca, aos poucos, tornou-se macia e logo ardia em brasa, num sufocante emaranhar de lábios.

Ao abrir os olhos, ele vê uma mulher desnuda, a mesma que ele viu naquela noite, a mesma que ele esculpiu, a mesma que ele beijou. E ela caminha para longe, para onde o sol começava a se esconder, para onde as horas seguiram tão repentinamente que ele nem mesmo se deu conta. É nesse momento que o homem percebe que é ele, agora, a escultura na areia. O pavor o acomete. Assim, aquela mulher, num último olhar, deixa cair uma lágrima e logo segue seu caminho. E o mar, numa onda repentina, avança sobre a praia e dissolve a escultura. E o homem então, desaparece sob água fria do mar.

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