18.1.10

Pequeno guia de sobrevivência para homens recém-separados

Cosme Ferreira

A separação é sempre um renascer – dolorosa, portanto. Nos primeiros meses sem a esposa, buscam-se aventuras as mais doidivanas. Sexo, sexo e sexo: esse é o lema. Porém, na medida em que o tempo vai passando, a melancolia começa a dar o ar da graça. Todas as empreitadas sexuais vividas tornam-se ocas e sem nexo. Desponta a ausência do convívio familiar, a sensação de constância que ele trazia dá saudade – Milan Kundera chamou isso de “a insustentável leveza do ser”. Sentimo-nos como peixes fora d’água – ou como um exilado num país distante e desconhecido. Desterro: o substantivo que melhor ilustra esse momento tão conturbado de nossas vidas.

Porém, para aplacar a escabrosidade desses sentimentos e sensações, urge agir o mais rápido possível. Afinal, não se pode desistir de lutar pela centelha de vida que, a despeito das vicissitudes, continua a arder em cada sujeito humano. O que fazer? Não existe receita de bolo, é óbvio. Não estamos diante de uma comédia romântica hollywoodiana. No entanto, construindo uma rotina salutar de atividades, ocupa-se o cérebro e a angústia começa, aos poucos, a esmorecer.

Em primeiro lugar, não devemos buscar com sofreguidão uma mulher para amar – sem falar do sexo pelo sexo, que é algo por demais deletério. Essas coisas ocorrem espontaneamente, sem querer forçar a barra. Continuemos a sair de casa, sobretudo nas sextas-feiras à noite. Um barzinho, um show – e até mesmo uma caminhada. Nada de exageros, por favor. Nem oito nem oitenta. Como boa parte dos filósofos nos diz, o importante é nortear-se pela moderação, a “média áurea” aristotélica.


Também, deve-se ter sempre um livro à mão, não importa onde estivermos. A leitura – se bem escolhida – edifica a alma, alenta nosso gosto estético e abre diversas possibilidades intelectuais, além de ser um passatempo da mais nobre estirpe. Assistir a um bom filme também ajuda e faz bem à mente. E, para aqueles que dispõem de bons rendimentos (não é o caso deste que vos fala), uma viagem, pelo menos duas vezes por ano, é mui bem-vinda. “Liberdade é movimentação”, já dizia o mestre Guimarães Rosa, na boca do jagunço Riobaldo.

Por fim, o consumo de álcool – para os não abstêmios – é prática obrigatória. Recomenda-se cerveja, por ser uma bebida leve e de sabor não tão desagradável. De vez em quando, uma dose de um bom uísque num local público tem um efeito social interessante. Cachaça, conhaque e congêneres precisam ser evitados, pois os seus corolários são catastróficos: fazem-nos, muitas vezes, choramingar lembrando a época do casório, um saudosismo que, em 99% dos casos, é puro onirismo alcoólico, o que nos faz passar por ridículos – e, pior ainda, pode encorpar nossa autopiedade.

Bem, procedendo-se assim, os males hão de mitigar-se. Entretanto, por pior que tenha sido o casamento, a ausência tende a persistir – em diferentes gradações, dependendo do indivíduo – nos primeiros meses (e até anos) de separação. Algo normalíssimo. Por quê? Puro costume. Adquirimos o “hábito” de estar casados, nada mais. É uma espécie de vício. E, logicamente, não é fácil livrar-ser dele. Temos que investir pesado no tratamento de desintoxicação. E fazer de tudo para não reincidir, sob o mesmo teto, nos braços duma outra mulher – porque todas são iguais (saudações, Raulzito!). Relacionamento ideal só mesmo o namoro. Cada qual em seu lugar: aqui estão as fundações do bem amar.

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