13.9.09

Os verdadeiros livros de auto-ajuda


Sei que alguns amigos e amigas não me perdoarão por isso, mas, lá vai: odeio livros de auto-ajuda e seus autores. Tenho profundo desprezo por gente como Lair Ribeiro, Roberto Shiniashiki e assemelhados. Livros com títulos bizarros como “Amando uns aos outros” (Leo Buscaglia) e “Vencer é ser feliz” (Silvério da Costa Oliveira). É certo que esses livros vendem feito água. É certo que muita gente que os lêem são pessoas inteligentes, que também lêem outras coisas mas que por alguma circunstância de vida resolvem procurar algum apoio emocional ou prático na leitura. Contudo, o que não é certo é que ler estes livros de auto-ajuda realmente ajude ao leitor. Geralmente as pessoas que conheço que os lêem acabam fingindo que resolvem os problemas pelo qual adquiram os livros ou até começam a resolvê-los graças às obras, mas depois arranjam outros problemas com que se ocupar. É que os livros de auto-ajuda são contraditórios em si. A ajuda que eles oferecem é, como diz o prefixo "auto", para fazer a própria pessoa se descobrir e se auto resolver. Porém, as soluções que eles apresentam são clichês e geranalizadas. Ou seja, a resposta para o problema de João pode não ser a mesma para solucionar o caso de Maria. Outro problema é que os best-sellers de auto-ajuda têm uma visão linear do mundo. Para estes autores - por ignorância, inocência ou má fé - o mundo é branco ou preto. Sem tonalidades de cinza como no mundo real. Daí a dificuldade de se aplicar os preceitos dos livros na vida real. Mas, faço aqui uma confissão com ares de mea culpa. Também tenho meus livros de auto-ajuda. Quando estou mergulhado em abismos emocionais, recorro logo ao "Assim falava Zaratustra", de Nietzsche ou ao "Lobo da Estepe", de Hesse. Dois livros que me levam do poço às alturas em questão de horas. Kazantzakis também é bom como auto-ajuda. Reler "O cristo recrucificado" ou "O pobre de Deus" têm sobre mim o efeito de um bálsamo. Se a crise não for das maiores, nada melhor que Stendhal, "O vermelho e o negro" ou "A cartuxa de Parma", indispensáveis. Poesia também resolve. Uma lida no melhor de Cecília Meireles, Zila Mamede ou Mário Quintana atua uma mim com a força de um Prozac. E tem Shakespeare. Serve para tudo, de depressão e tédio à unha encravada. Aconselho começar com "Romeu e Julieta" e "Sonho de uma noite de verão", suaves e levemente eróticos. Depois, parte-se para "Otelo" e as comédias mais trabalhadas. Por fim, enfrenta-se "Hamlet", "Macbeth" e "Rei Lear". Depois de se ler a cena do velho e prepotente Lear, acompanhado apenas pelo Bobo, perdido em meio à tempestade e desprezado pelas filhas, tem-se a sensação de que nos tornamos outra pessoa. Sensação que também tenho após a leitura de “O fio da navalha”, de Maugham e “On the road”, de Jack Kerouac, livros que mudaram a minha vida. E para melhor. Desafio os leitores de Paulo Coelho e similares a dizer a mesma coisa sobre os livros que lêem e sobre suas vidas. Auto-ajudar-se não é achar soluções fáceis para a vida mas sim compreender, como já citaram a Bíblia e Shakespeare, que ela - a vida - é feita de som e de fúria. Para isto, esqueça as boas intenções e os livros cheios de conselhos cabotinos (“seja você mesmo”, “confie no seu potencial” etc). Para compreender a vida (e a si mesmo em última instância) o melhor mesmo é a literatura. A boa literatura, diga-se.


Cefas Carvalho

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