Internet: uma nova forma de ler o mundo
O brasileiro, principalmente aqueles das classes menos abastadas, tiveram contato mais íntimo com os meios de comunicação eletrônicos antes do que com os livros. Em 1930 o Rádio já era dominante no país e posteriormente, entre as décadas de 70 e 80, a Televisão passou a assumir esse posto de popularidade. No vértice oposto, o ensino médio só se tomou acessível a todos apenas na década de 90; ou seja, a população aprendeu a consumir “conhecimento” inicialmente através dos meios eletrônicos. Isso gerou uma postura de descaso ou desinteresse pelos livros. Quem é que já não ouviu a frase: “Eu prefiro ver o filme a ler o livro!”.
Esse distanciamento comportamental para com o livro suscita até hoje várias crises no mercado editorial. O brasileiro não tem o hábito de comprar livros, muito menos de freqüentar bibliotecas com regularidade. No entanto, quem não ouve rádio e assiste Tv? Todos. E de todas as classes. E esse processo de popularização está em pleno desenvolvimento no que se refere à Internet. Hoje, apesar de haver ainda uma grande exclusão digital, a cada ano as pessoas acessam mais ainda a Internet. Inclusive as das classes menos favorecidas. Atualmente, multiplicam-se os locais de acesso pagos (lan houses) ou de acesso gratuito (escolas, trabalho, fundações etc). A Internet está se popularizando, como se popularizou a Televisão. E o ritmo desse processo é rápido; em vista disso é que se faz necessário cada vez mais estudar e compreender esse fenômeno. Mas é preciso, antes de tudo, encarar essa realidade liberto de preconceitos. Embora a Academia ainda mantenha certa resistência quanto ao uso da Internet como fonte para a produção científica, a revolução no conhecimento trazida pela web é única. E impossível de ser vilipendiada. Para se ter uma idéia, no Brasil apenas 30%1 das cidades possuem livrarias, enquanto que 50%2 têm acesso à Internet.
Assim, imagine a situação de um estudante que precisa fazer uma pesquisa para entregar um trabalho, mas em sua cidade ele não tem acesso a livros recém lançados ou outras fontes de pesquisa. Esse estudante então vai a uma lan house e de lá acessa bibliotecas on-line de diversos lugares e consulta vários livros que ele precisa para fazer sua pesquisa (sejam em sites piratas ou em sites oficiais, pois não será discutido aqui a questão da pirataria). O fato é que ele consegue as suas fontes e termina o trabalho. Mas é reprovado ao mostrar em suas referência bibliográficas que suas fontes foram todas tiradas de sites da Internet. Ora, os livros que ele consultou são os mesmos que estão nas prateleiras da casa do professor, a diferença é que eles foram digitalizados...
O mesmo princípio se dá no que se refere à literatura. Há alguma diferença de qualidade entre um livro de Machado de Assis que se compra numa livraria e um que está disponível no site www.dominiopublico.gov.br? O que muda é apenas o suporte físico, a criação artística é genuína da mesma forma. Então, se Machado de Assis fosse contemporâneo da revolução digital e ele resolvesse escrever um romance exclusivamente para o universo virtual, a qualidade dessa sua obra seria menor do que as demais?! Aquele professor que reprovou o estudante por utilizar a Internet como fonte de pesquisa certamente acharia que sim. Mas esse professor não consegue visualizar que o suporte digital possibilita que a obra percorra qualquer distância geográfica e social, podendo ser acessada em qualquer lugar do mundo e por qualquer pessoa, evidenciando uma verdadeira democratização da cultura.
Conscientes desse fato, cada vez mais escritores passaram a divulgar seus trabalhos pela Internet. E não apenas digitalizando seus livros já publicados, mas criando textos literários exclusivamente para a web. Como o acesso ao livro impresso ainda é bem mais excludente do que o acesso à Internet (uma vez que os maiores consumidores de livros encontram-se nas classes A e B, enquanto que as classes C e D acessam cada vez mais a Internet3) multiplicaram-se os sites de divulgação da literatura. E nesse contexto, os escritores segregados pelo mercado editorial (que só busca o vendável e não a qualidade propriamente dita) puderam se mostrar ao público.
Hoje a literatura virtual é mais do que um fato, é uma prática consolidada. O Brasil é o quinto país do mundo em acessos a blogs4 (principal mecanismo de divulgação literária na Internet). Mas não há apenas que se comemorar esses números. É preciso compreender esse processo em seus detalhes e, principalmente, em suas conseqüências; pois esse novo modo de escrita possui suas próprias características, as quais produzem reflexos artísticos, literários e lingüísticos na sociedade. Trata-se de uma nova forma de “ler” o mundo. E ao entender esse novo modo de ler (e escrever), o espaço literário virtual poderá ser utilizado com mais responsabilidade e consciência, valorizando suas duas maiores virtudes: ser democrático e de grande alcance. Para, com isso, podermos verdadeiramente falar em uma revolução do conhecimento, de forma gratuita, acessível e livre.
Tullio Andrade
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