17.3.10

Seres desinteressantes

Cosme Ferreira

Numa de minhas aventuras etílicas de fim de semana, aceitei o convite de um amigo para passar a noite na casa de um colega dele, localizada no Parque das Colinas, um dos endereços mais caros da capital potiguar. Antes de chegarmos lá, entramos no Carrefour a fim comprar montila e cervejas, o combustível de muitos noctívagos. Nesse ínterim, demos de cara com um antigo companheiro de faculdade que, gentilmente, nos deu carona até o nosso destino. Boa alma, apesar da feiura.

Dessarte, conheci o anfitrião, engenheiro civil de formação, bem-sucedido no ramo, dono de uma construtora que atua no interior do Estado. Os convivas, aos poucos, começaram a dar o ar da graça. Homens e mulheres acima dos vinte anos, todos filhotes das elites potiguares, gente de muito dinheiro na algibeira. Meu amigo e eu éramos os "primos pobres" na festinha.

A primeira surpresa da noite deveu-se à escolha do repertório musical. Só aqueles forrós mais manjados e insuportáveis, que tocam à exaustão nas rádios e bares, e cujas letras enaltecem, como num monólito, a tríade do sexismo nordestino: rapariga, cachaça e cabaré. Não que eu esperasse ouvir Mozart ou Chopin, mas não houve espaço para as minhas preferências mais populares (um forró do Dominguinhos teria me deixado bem feliz). Para falar a verdade, tive mesmo vergonha de fazer qualquer sugestão e, ipso facto, ser vaiado em público, colocado para fora ou linchado, pois aquelas pessoas me pareceram refratárias a tudo aquilo que fugisse ao seu gosto musical.


Ao passo que consumia a cerveja, meus ouvidos ficaram imunes ao som ambiente e, num gesto de ousadia e intrepidez, fiz até um gracejo com uma música "romântica" da banda Aviões do Forró: "Estou profundamente emocionado com o lirismo da composição. Ela tocou no âmago do meu ser". Confesso que tentei ser espirituoso ao dizê-lo. A reação foi a pior possível. Uma das convidadas, bonequinha de luxo aspirante a odontóloga, olhou-me estarrecida e fez aquele conhecido gesto no qual o dedo indicador descreve movimentos circulares próximo à orelha (a saber, chamou-me de doido), com o endosso tácito dos demais presentes. Meu amigo veio em minha direção e cochichou o seguinte: "Nada de dizer qualquer coisa minimamente inteligente aqui. O pessoal não vai alcançar".


E ainda tem gente que afirma que dinheiro compra tudo! Dinheiro está longe de comprar sensibilidade (prefiro ser pobre, porém limpinho). O máximo que ele pode fazer é fornecer, por algum tempo, uma roupagem de superioridade às pessoas que o têm. No entanto, no momento em que abrem a boca para externar algum ponto de vista ou preferência estética, vê-se, na maioria das vezes, o quão supérfluas e insignificantes elas são, porquanto levam a vida de forma cosmética e desprovida de um sentido mais rigoroso (uma orientação teleológica, pelo menos). Congratulações a Henrique Castriciano, cronista do nosso quotidiano, que, em princípios do século passado, já detectara essa mazela nas camadas dominantes da sociedade natalense.


E como aquele calvário terminou? Sorte que eu nem me lembro. Bebi tanto que sequer recordo como cheguei à minha casa. Só sei que acordei no meu quarto, por volta das 7:30h da manhã, com uma ressaca de amargar. Pela primeira vez comemorei uma amnésia alcoólica. Boa parte da chatice que vivi foi-se embora! Não que eu seja muita coisa, mas qualquer dia desses me tranco no banheiro para encher a cara sozinho; seres humanos interessantes estão mesmo cada vez mais escassos (nem a bebida dá jeito!); presumo que sejam uma espécie em extinção, algo assim como o mico-leão-dourado.

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