4.11.09

SE EU USASSE CELULAR

Rizolete Fernandes - mrizolete@yahoo.com.br



Encontrei ontem na rua um amigo que não via há meses. Por coincidência, no momento em que nos dirigíamos um ao outro, ele atendeu ao celular, voltou-se inteiramente para a chamada e eu, sem querer ficar ouvindo conversa alheia, que dava mostra de ir longe, fui saindo de fininho, com pena do abraço adiado. A cena parece incorporada ao comportamento das pessoas, por que a trago à baila?

Ora, aparentemente simples, o episódio, na realidade, é a demonstração cotidiana de um fenômeno complexo de dimensões planetárias que consiste na substituição do contato físico humano pelo contato virtual, processada nos dias atuais por detentores de aparelho celular. Num mundo curvado aos aparatos da comunicação virtual, o leitor não precisará de esforço para lembrar das várias vezes em que viu numa mesa de bar, duas pessoas (que supostamente se encontraram para conversar) ignorarem-se, para se estender em bate-papos com pessoas distantes dali, pelos celulares. O que no meu entender contradiz o argumento daqueles que vêem o uso crescente do meio como forma de amenizar a solidão.

Sem dúvida a telefonia móvel, como parte da evolução tecnológica que caracteriza o atual estágio de desenvolvimento, é essencial ao funcionamento da multifacetada rede de afazeres humanos. Tornou-se imprescindível a inúmeras profissões e muitos casos específicos, embora seu crescimento, que já atinge um em cada três brasileiros, se dê, em boa parte, por usos no mínimo dispensáveis e entre os mais jovens. Mas o foco aqui é a substituição do contato pessoal, direto, pelo virtual e os reflexos possíveis desse afastamento físico nas relações sociais, cujo tecido já se mostra bastante esgarçado.

Como o leitor pode depreender do título, não sou usuária deste tipo de telefonia, para o que pode ter concorrido um episódio quase anódino, à época da chegada dos primeiros “tijolões” à Natal, já lá se vão mais de 12 anos. Num grupo, o conhecido de um amigo exibia, orgulhoso, sua nova aquisição, da qual fornecia o número a quem chegasse perto, lembrando a todo instante e com o que me pareceu afetação, que não deixassem de ligar “no m e u ce-lu-laar”. Pronto, iniciava-se ali a indisposição! A outra e mais consistente explicação diz respeito à minha condição de egressa do mercado formal de trabalho. Sem horários pré-estabelecidos a obedecer e independente de exigências outras que não o compromisso com minha escrita, fiz opção por não usá-lo.

E dessa forma continuo exercitando o cara a cara como modo preferencial de relacionamento, formando, com a grata companhia de Alex Nascimento, entre outros poucos, a fileira dos sem-celulares da cidade. Muitas vezes, divirto-me com o espanto das pessoas que me arguem a respeito e busco desestimular amigos que tentam me mimosear com esse objeto do desejo de um número cada vez maior de viventes.

Claro, muita gente usa o celular de forma discreta, comedida e quando necessário, mas é fácil constatar que boa parte das pessoas em nossa cidade a ele recorre sem moderação e com sobeja deselegância. Se eu usasse telefone celular, procuraria jamais protagonizar, entre outras, as seguintes cenas:

a) adentrar recintos coletivos conversando virtualmente, indiferente aos apertos de mão e outros educados cumprimentos; b) deixar esperando a pessoa que acabasse de entrar em minha sala, para me estender em conversa com alguém que chamou por essa via, como se não fosse possível pedir para ligar dentro de alguns minutos; c) entrar numa sala de espetáculos com o aparelho ligado, inaceitável desrespeito aos artistas e ao público; d) obrigar pessoas em filas de banco, salas de espera e outros, a ouvir prosaicas conversas alheias; e) num restaurante, em voz alta, encetar discussão virtual infindável, para infelicidade da vizinhança que só queria fazer a refeição em paz.

Finalmente e, sobretudo, ao ser alcançada por uma dessas ligações, no exato instante de um encontro, diria num átimo a quem estivesse chamando que ligaria depois, em deliberada e flagrante substituição do calor do celular na orelha pelo dos dois aconchegantes braços humanos estendidos bem ali, a minha frente.

Nenhum comentário: