“A ARTE DE ESCREVER”
Sob esse título Pedro Sussekind brinda o público leitor com os ensaios compilados do livro Parerga und Paralipomena ― com o significado aproximado de “Acessórios e Remanescentes”, segundo o tradutor ― de Athur Schopenhauer (1788-1860), escrito em 1851.
Os assuntos tratados são interessantíssimos e atuais, principalmente porque a partir deles é possível fazer uma espécie de comparação com o que vem acontecendo na literatura (geral e não só artística) difundida nesta quadra histórica em que vivemos. Na tradução de Sussekind, publicada pela Editora L&PM POCKET, edição de janeiro de 2009, foram incluídos os seguintes temas: “sobre a erudição e os eruditos, pensar por si mesmo, sobre a escrita e o estilo, sobre a leitura e os livros, sobre a linguagem e as palavras”.
Criticou Schopenhauer, veementemente, os eruditos da sua época, dizendo que eles representavam, em sua maioria, setores da pseudointelectualidade que de tempos em tempos divulgam, “de modo sumário e apressado”, conhecimentos revisados do passado, dando-lhes interpretações de tal maneira a considerá-los muito mais interessantes e significativos do que antes. Apontou a distinção entre informação e instrução, porquanto a primeira configura apenas como mero meio para se alcançar a segunda e tem muito pouco valor se considerada isoladamente. Ainda sobre a erudição e os eruditos, discorreu a respeito da deficiência do conhecimento “especializado” e compartimentado, pois “[...] a verdadeira formação para a humanidade exige universalidade e uma visão geral”. Contestou o abandono gradual do estudo e emprego do grego, latim e de outras línguas antigas, principalmente porque pelo intermédio delas seria possível divulgar conhecimentos gerais em regiões longínquas com línguas diferentes. Defendeu a inclusão da filosofia como disciplina a ser estudada em todos os cursos universitários.
Em “Pensar por si mesmo”, Schopenhauer ataca todos aqueles por ele nominados e considerados filósofos que não pensam por si mesmo, mas que se apegam a ideias e reflexões dos outros. Para evitar tal comportamento, aconselha a ter cuidado com a leitura excessiva, pois do contrário se perderá a capacidade e o poder de alcançar o raciocínio autêntico, extraído a partir da observação do mundo. Nesse sentido veja-se a seguinte passagem: “Desse modo, o excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade, da mesma maneira que uma pressão contínua tira a elasticidade de uma mola. O meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre. Essa prática explica por que a erudição torna a maioria dos homens ainda mais pobres de espírito e simplórios do que são por natureza, privando também seus escritos de todo o e qualquer êxito.”
Essa linha de pensamento crítico e mordaz do filósofo segue nos seus demais textos “sobre a escrita e o estilo, sobre a leitura e os livros, sobre a linguagem e as palavras”. Era de poucos amigos e muitos desafetos. Com vocabulário seco e direto, dirigia farpas contra seus interlocutores.
Quando li esse livro fiquei imaginando o que Schopenhauer iria dizer do nosso grupo de leitura da PGJ. Já pensou o seu espanto quando soubesse que estamos lendo um livro por mês, sem contar com outros lidos paralelamente? Certamente nos qualificaria de papagaios nordestinos eloquentes, repetidores do conhecimento alheio, e talvez até mesmo de metidos a divulgadores e questionadores, em reuniões mensais, dos livros folheados. Acrescentaria que tal hábito iria nos anular na capacidade de descobrir e criar conhecimentos autênticos, e talvez nos aconselhasse a ler somente dois livros por ano, um a cada semestre. O tempo restante deixaria para a observação atenta e reflexões gerais.
Ainda bem que Schopenhauer e nem um de seus discípulos transita no nosso meio. Certamente no tempo em que viveu as fontes de aquisição do conhecimento eram restritas às reflexões das experiências cotidianas e à língua escrita e falada. Atualmente, além dessas, outras inúmeras maneiras de apreensão e descoberta do saber estão à nossa disposição ― não se esqueça que nas sociedades onde o móvel das relações sociais é o numerário, ensejadora de excessiva concentração de renda nas mãos de poucos, o acesso às fontes da cultura e do saber se torna extremamente difícil para aqueles detentores apenas do suficiente para comprarem o imprescindível à sobrevivência.
A leitura de livros, diria ao Sr. Schopenhauer, somente poderia ser considerada prejudicial àqueles desprovidos de senso crítico e de independência intelectual, porque fáceis consumidores e absorvedores de mensagens publicadas. Para os que exercitam a reflexão, o ato de ler leva à rejeitar, aceitar, transformar, criar etc., estimula o debate, a participação e o envolvimento transformador do meio onde se vive; abre novos horizontes e perspectivas de visão e de entendimento do mundo; propicia o diálogo. Enfim, alguém já disse, o conhecimento liberta. E o livro é um dos instrumentos ou veículo principal para se alcançar essa libertação.
Natal/RN/outubro/2009.
Márcio Luiz Diógenes
marciodiogenes@digizap.com.br
Sob esse título Pedro Sussekind brinda o público leitor com os ensaios compilados do livro Parerga und Paralipomena ― com o significado aproximado de “Acessórios e Remanescentes”, segundo o tradutor ― de Athur Schopenhauer (1788-1860), escrito em 1851.
Os assuntos tratados são interessantíssimos e atuais, principalmente porque a partir deles é possível fazer uma espécie de comparação com o que vem acontecendo na literatura (geral e não só artística) difundida nesta quadra histórica em que vivemos. Na tradução de Sussekind, publicada pela Editora L&PM POCKET, edição de janeiro de 2009, foram incluídos os seguintes temas: “sobre a erudição e os eruditos, pensar por si mesmo, sobre a escrita e o estilo, sobre a leitura e os livros, sobre a linguagem e as palavras”.
Criticou Schopenhauer, veementemente, os eruditos da sua época, dizendo que eles representavam, em sua maioria, setores da pseudointelectualidade que de tempos em tempos divulgam, “de modo sumário e apressado”, conhecimentos revisados do passado, dando-lhes interpretações de tal maneira a considerá-los muito mais interessantes e significativos do que antes. Apontou a distinção entre informação e instrução, porquanto a primeira configura apenas como mero meio para se alcançar a segunda e tem muito pouco valor se considerada isoladamente. Ainda sobre a erudição e os eruditos, discorreu a respeito da deficiência do conhecimento “especializado” e compartimentado, pois “[...] a verdadeira formação para a humanidade exige universalidade e uma visão geral”. Contestou o abandono gradual do estudo e emprego do grego, latim e de outras línguas antigas, principalmente porque pelo intermédio delas seria possível divulgar conhecimentos gerais em regiões longínquas com línguas diferentes. Defendeu a inclusão da filosofia como disciplina a ser estudada em todos os cursos universitários.
Em “Pensar por si mesmo”, Schopenhauer ataca todos aqueles por ele nominados e considerados filósofos que não pensam por si mesmo, mas que se apegam a ideias e reflexões dos outros. Para evitar tal comportamento, aconselha a ter cuidado com a leitura excessiva, pois do contrário se perderá a capacidade e o poder de alcançar o raciocínio autêntico, extraído a partir da observação do mundo. Nesse sentido veja-se a seguinte passagem: “Desse modo, o excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade, da mesma maneira que uma pressão contínua tira a elasticidade de uma mola. O meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre. Essa prática explica por que a erudição torna a maioria dos homens ainda mais pobres de espírito e simplórios do que são por natureza, privando também seus escritos de todo o e qualquer êxito.”
Essa linha de pensamento crítico e mordaz do filósofo segue nos seus demais textos “sobre a escrita e o estilo, sobre a leitura e os livros, sobre a linguagem e as palavras”. Era de poucos amigos e muitos desafetos. Com vocabulário seco e direto, dirigia farpas contra seus interlocutores.
Quando li esse livro fiquei imaginando o que Schopenhauer iria dizer do nosso grupo de leitura da PGJ. Já pensou o seu espanto quando soubesse que estamos lendo um livro por mês, sem contar com outros lidos paralelamente? Certamente nos qualificaria de papagaios nordestinos eloquentes, repetidores do conhecimento alheio, e talvez até mesmo de metidos a divulgadores e questionadores, em reuniões mensais, dos livros folheados. Acrescentaria que tal hábito iria nos anular na capacidade de descobrir e criar conhecimentos autênticos, e talvez nos aconselhasse a ler somente dois livros por ano, um a cada semestre. O tempo restante deixaria para a observação atenta e reflexões gerais.
Ainda bem que Schopenhauer e nem um de seus discípulos transita no nosso meio. Certamente no tempo em que viveu as fontes de aquisição do conhecimento eram restritas às reflexões das experiências cotidianas e à língua escrita e falada. Atualmente, além dessas, outras inúmeras maneiras de apreensão e descoberta do saber estão à nossa disposição ― não se esqueça que nas sociedades onde o móvel das relações sociais é o numerário, ensejadora de excessiva concentração de renda nas mãos de poucos, o acesso às fontes da cultura e do saber se torna extremamente difícil para aqueles detentores apenas do suficiente para comprarem o imprescindível à sobrevivência.
A leitura de livros, diria ao Sr. Schopenhauer, somente poderia ser considerada prejudicial àqueles desprovidos de senso crítico e de independência intelectual, porque fáceis consumidores e absorvedores de mensagens publicadas. Para os que exercitam a reflexão, o ato de ler leva à rejeitar, aceitar, transformar, criar etc., estimula o debate, a participação e o envolvimento transformador do meio onde se vive; abre novos horizontes e perspectivas de visão e de entendimento do mundo; propicia o diálogo. Enfim, alguém já disse, o conhecimento liberta. E o livro é um dos instrumentos ou veículo principal para se alcançar essa libertação.
Natal/RN/outubro/2009.
Márcio Luiz Diógenes
marciodiogenes@digizap.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário