13.10.09

Flores do Mais

Ana Cristina César

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais









Inércia

Fernando Fontes

A sala era fria, com as paredes de concreto nuas e janelas de alumínio com vidros escuros. A cadeira ergonômica projetada não passava de um engodo do mundo moderno, pois sua coluna há tempos que tinha ido para o saco. Os seus olhos ardiam e lacrimejavam com a clara tela do computador. Havia pelo menos quatro horas que nem sequer se levantava da cadeira, uma inércia inexplicável, mas cuja força invisível ele não conseguia vencer. Seu senso de responsabilidade para com o trabalho e todo o resto de sua vida em sociedade o tinha como refém, e aparentemente só a loucura de sua mente o faria se livrar daquelas pesadas e invisíveis correntes. No fone de ouvido um som alucinante embalava sua mente, algo que insinuava um mundo muito diferente do seu. Sentia que aquelas notas podiam muito bem estar escorrendo pelas janelas abertas de seu carro, enquanto dirigia em alta velocidade por uma bela estrada à beira-mar, com o vento massageando seus cabelos. Racionalizava e ponderava as conseqüências de realizar aquele seu desejo. Nada o poderia impedir, bastava sair, sem dar explicações, sem ligar para o que dele falassem. Por que isso parecia tão difícil? Notou que tudo o que o prendia ali era um engessamento de seus hábitos por parte de sua rotina de anos. Lembrou de um filme de comédia que havia assistido tempos atrás em que um funcionário, trabalhando em um escritório cinzento numa espécie de subsolo, repentinamente tinha um ataque de nervos e dizia tudo que pensava de seus colegas e de seu chefe, dando por encerrada a sua missão naquele trabalho. No entanto, o personagem do filme tinha acabado de saber que, por conta de uma doença rara, poucos meses de vida lhe restavam. Tudo bem que no seu caso a morte não era uma questão de meses, mas era ainda pior. Era uma questão de um tempo indefinido, mas finito, que independente de quando viesse a se extinguir, se aproximava a cada segundo do seu fim. Quando a porta atrás de si se abriu ele rapidamente clicou no arquivo do relatório que tinha concluído desde as primeiras horas da manhã, encobrindo os mapas com os quais planejava a sua viagem sem fim e sem início.

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