26.9.09

O texto que os leitores lerão trata-se de um desabafo. Ele me foi enviado por um companheiro de profissão que leciona numa escola particular de Natal. Ocorrida no final de 2008, a situação nele descrita consiste, sem sombra de dúvida, num caso de humilhação e desrespeito ao profissional da educação. O professor, com receio de ser demitido (já que três de seus colegas haviam sofrido esse destino pouco antes), não enviou suas queixas à Supervisão Escolar da instituição – em empresas privadas reclamar geralmente figura entre os verbos inconjugáveis. Destarte, os nomes do autor, do colégio e de tudo que a eles se relaciona foram alterados, visando preservar o emprego do meu colega, que tem mulher e dois filhos para sustentar, e que, infelizmente, ainda não pôde mudar de mister.

Advertência: Com a permissão do autor, fiz algumas modificações no texto, especialmente no tocante a aspectos ortográficos e estilísticos.



Nota de repúdio à “brincadeira” do pré-vestibular

Cosme Ferreira


Ontem, por volta das 11h:25min, fui vítima de agressão física e moral perpetrada por alunos de pré-vestibular da Escola Fulana de Tal. Na ocasião, como todas as quartas-feiras, eu dava aula no 1º Ano B, quando, de chofre, os escolares em causa passaram a se aglomerar na porta da sala de aula em que eu estava, fazendo muito tumulto e algazarra. Fiquei sem saber como reagir. Não percebi, inclusive, a presença de qualquer coordenador disciplinar no local. Pouco depois, eles tomaram a classe violentamente, qual uma alcateia. Minha aula, até então, já agonizava, estertorosa. O pior, contudo, estava por vir. Cerca de quinze alunos acercaram-se de mim e começaram a bradar, numa espécie de coro energúmeno e bestial: “Salga! Salga! Salga!”. Entrementes, ainda tive tempo de perguntar o porquê de tudo aquilo. A resposta de um dos envolvidos foi a seguinte: “Ora, Cicrano, todos os outros professores também participaram da brincadeira”. Por alguns instantes, minha cabeça foi alvo dos safanões e pancadas desferidos por um grupo de estudantes enfurecidos, que pareciam regurgitar todos os seus demônios internos em mim. Logo em seguida, eles se retiraram da sala, como se nada houvesse sucedido, gritando feito loucos corredor afora.
O mais doloroso de tudo foi presenciar a reação de muitos dos estudantes da turma na qual eu estava, que, em vez de me prestarem auxílio, ficaram a gargalhar convulsivamente da situação aberrante pela qual eu acabara de passar. Sofri, como já mencionei, uma dupla agressão: física e moral. Física, pelo fato de ter sido golpeado na cabeça, o que me causou, por alguns minutos, enjoo, escurecimento de vista e tremedeira nas mãos. Moral, visto que fui exposto ao ridículo ante meus alunos, tratado como um genuíno saco de pancada, humilhado em pleno exercício profissional.
Meio desnorteado, saí da classe em busca de alguém responsável pelos alunos infratores, com o propósito de pedir explicações sobre o oprobrioso episódio. Eis o que um dos coordenadores disciplinares, surgido do nada, falou-me: “Tenha paciência com eles, professor. É só uma brincadeira para comemorar o final do ano e a proximidade do vestibular”. Brincadeira! Que tipo de brincadeira é essa?! Como algo que sevicia e humilha as pessoas pode receber o rótulo de “brincadeira”? E se eu fizesse o mesmo com os meus alunos? Suponhamos que, por “brincadeira”, eu resolvesse bater em suas cabeças gritando “Salga! Salga! Salga!”. O mínimo que ocorreria comigo seria a demissão. Sabe-se como é difícil ser professor num país como o nosso, que desvaloriza a educação e, por conseguinte, o magistério; porém, por amor à profissão e vontade de mudar, persisto diariamente na labuta. Em oito anos de experiência profissional, passei pelas mais diversas escolas, públicas e privadas, convivi com variegados tipos humanos, do assaltante ao piolho de igreja. Entretanto, jamais havia sido agredido fisicamente. Afinal, que espécie de indivíduos frequentam as salas de aula da Escola Fulana de Tal? Que educação essas pessoas recebem no seio familiar? São ensinadas pelos pais a tratar os profissionais da educação como seus capachos, posição semelhante à dos antigos senhores de engenho diante de sua escravaria? Além disso, qual a posição da escola em relação aos casos de indisciplina? Será que as punições aplicadas aos alunos têm surtido o efeito desejado? Falo por mim e pelos outros colegas agredidos. Não se pode conceber como um episódio desse naipe possa macular uma instituição como a Escola Fulana de Tal, na qual eu estudei durante boa parte de minha existência e pela qual nutro enorme deferência e amor. O que diria a saudosa Fulana de Tal, cujas características mais marcantes eram a tranquilidade de espírito e a afeição à ordem e à disciplina, se deparasse com uma situação como essa?
O que nós, professores, queremos é que haja, por parte da Supervisão Escolar, uma atitude enérgica em relação aos alunos agressores. Que eles sejam obrigados a se desculpar pelo grotesco ato que orquestraram. E que medidas disciplinares mais rígidas sejam adotadas com todos os discentes da instituição, a fim de evitar mixórdias semelhantes. Isso, de certa forma, já mitigaria a vergonha que sentimos perante os alunos que assistiram ao hórrido espetáculo. As sequelas do ato, no entanto, serão, para nossa vida profissional, imorredouras. Tenho certeza de que os professores agredidos estão pelo menos a matutar, nesse momento, sobre os reveses de seu ofício. Quanto a mim, não sei ao certo se, doravante, vale a pena continuar a ser professor num país que nos trata com tanto desdém e menosprezo. É por isso que, hoje em dia, cada vez mais professores estão enveredando por outros caminhos profissionais. É triste, mas corresponde à verdade.

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