23.5.10

ANTES DA CAMA
Rizolete Fernandes



Sentado no banco da parada de ônibus, um jovem dormia a sono solto. Tinha as pernas estiradas uma sobre a outra, braços cruzados e a cabeça para um lado, perfeitamente indiferente aos primeiros raios de sol e ao burburinho da vida diária em seu recomeço.

O rapaz vestia bermudas, camiseta (que os da sua tribo chamam de abadá) e tênis, sendo fácil deduzir de onde procedia. Estávamos numa segunda-feira e, na madrugada, chegara ao fim mais uma edição do carnaval fora de época que acontece na cidade entre o final de novembro e o começo de dezembro, há vários anos.

As pessoas chegavam e partiam para seus empregos e afazeres, sem lhe incomodar. Suponho que a exaustão dos quatro dias de folia tenha impedido esse pierrô dos tempos modernos de alcançar sua casa, levando-o a adormecer ali mesmo onde permanecia imerso em sono profundo.

Quiçá estivesse sonhando e em sonho reencontrasse a “mina” que lhe encantara em meio ao barulho ensurdecedor dos trios elétricos, ou fizesse a conta de quantas delas beijara durante aqueles dias de campeonato de resistência física em que, depois do levantamento de “latinha”, a principal modalidade esportiva praticada é o beijo na boca. Ou, quem sabe, tenha tomado todas, inconformado por não conseguir ficar com aquela que lhe iluminara todos os painéis, desde os primeiros acordes da festa movida a decibéis estratosféricos, álcool e outros artifícios.

Mas também pode ser que, largado no incômodo daquele leito improvisado, quisesse expressar através do sono público, seu protesto pelo fim da micareta à qual como ele aderem milhares de foliões, a maioria agora usufruindo do conforto de suas camas, em casa ou nos hotéis onde se hospedaram os que vieram de fora.

Ele não, está ali, nervo exposto da busca pela ponta recém partida do fio do faz-de-conta que, desperto, só iria reencontrar no ano seguinte. A quem o vê nessa circunstância não é dado adivinhar em que condições vive. E se dormir na rua for a sua maneira de retardar o reencontro com a dureza do cotidiano? A volta ao desemprego, ou à rotina de um trabalho entediante, à insegurança que baila nas ruas, à consciência do dinheiro que acabou de torrar e talvez vá fazer falta às prestações ao longo do mês, ou ao leite de uma criança concebida na pressa da avidez adolescente? Saber, quem haverá de?

Minh’alma foliã deseja que seja apenas uma maneira irreverente de dizer: senhoras, senhores, diverti-me, cansei e dormi, antes de alcançar a cama.

Tenham todos um bom-dia!

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