28.3.10

A artista do impossível

Tullio Andrade

O mundo torna-se mais perfeito ao fervilhar do sangue. Ganha cores vivas e traços toscos, como se fosse um desenho rabiscado por mim quando criança. Eis a obra-prima desta artista do impossível, que dissolve as paredes sujas, deixando resplandecer por trás delas a mais sublime cena. Aquela que nem mesmo os maiores mestres da pintura poderiam retratar, pois a eles não é permitida tal visão onírica do inconsciente.

Mas para o pincel pontiagudo desse prodígio da arte, é tarefa fácil permitir que os poucos metros quadrados deste banheiro fétido e sombrio ganhem a vastidão de um cenário todo azul, invadido pelo vermelho, pelo rosa e pelo anil de todas a flores, tecendo um infinito tapete de cores e perfumes.

Mais simples ainda é consentir que as nuvens toquem o chão para que eu possa caminhar sobre elas, transformando o piso pegajoso que fiz de meu leito, na superfície macia e branca na qual me deito para dormir. Ela suaviza até mesmo os contornos disformes da minha imagem decrépita, tentando se equilibrar num corpo delgado do qual sobressaltam, pontiagudos, os ossos que a pele mal consegue esconder.

Uma nova realidade emoldura-se em meus olhos sempre que me encontro com ela. Essa é a prova de sua genialidade e da minha ingratidão. Pois, enquanto me deslumbro com as belezas que ela pintou, eu a desprezo. E ela fica esquecida num canto qualquer, sem receber créditos nem ouvir agradecimentos.

No entanto, ela não reivindica direitos. Simplesmente permanece quieta, muda, estática... Espera por mais uma dose, por mais uma veia para perfurar e, com seu pincel de metal, injetar as cores que faltam no obscuro mundo de viciados como eu.

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