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O prazer da leitura já não é mais o mesmo... Ainda bem! Hoje para ter acesso a uma literatura de boa qualidade não preciso mais ficar refém de livrarias e editoras, basta me conectar à Internet. A quantidade de sites e blogs dedicados à atividade literária cresceu bastante nos últimos anos. Faça o teste, escreva em qualquer um desses buscadores o termo “literatura” e veja quantos resultados aparecem...
O surgimento dos blogs, inicialmente com a função de ser um diário virtual, ofereceu aos autores uma ferramenta fantástica na democratização da literatura. A Internet possibilitou, com isso, que o ideal de liberdade que todo artista procura pudesse enfim ser real... ou melhor, virtual! Agora, para publicar seus textos, os escritores não precisam mais se submeter às imposições de um mercado editorial nem sempre justo e isento; basta criar seu próprio blog e diariamente publicar o que quiser, de forma direta, sem interferências de editores mal intencionados.
Escrever vai além da vaidade de ter seu nome na capa de um livro. O escritor Português e Prêmio Nobel, Jose Saramago, certa vez comentou ao lhe perguntarem porque ele escreve: “escrevo porque tenho umas tantas cosias para dizer. E acho que as pessoas precisam ouvir...”. Saramago é de uma geração em que os canais mais eficientes de divulgação de seus textos eram os jornais, revistas e livros. Hoje, temos a Web, com suas infinitas possibilidades, recursos e facilidades. “Publicar, como diz o clichê, é tornar público – e, nesse sentido, a Internet vai muito mais longe do que o livro.”, ressalta Julio Daio, editor do site “www.digestivocultural.com”. E ele vai mais além: “Muito do que se espera de um livro com o próprio nome na capa, a Internet já oferece, de graça, para estreantes na arte da escrita.”. A literatura produzia hoje na Internet é uma literatura visceral... feita por quem escreve pelo simples (ou seria complexo) prazer de escrever, apenas porque “tem umas tantas coisas para dizer”; sem se preocupar em cifras, mercados, marketing ou holofotes nas noites de autógrafos.
No entanto, o senso comum ainda não consegue assimilar que “escritor” não é só aquele que publica em papel. E em razão disso, a literatura virtual ainda sofre certos preconceitos e privações. O livro, como objeto físico, que enfeita as prateleiras e acumula poeira com o tempo, ainda é uma espécie de selo de qualidade para o autor. Se eu nunca chegar a publicar um livro de papel, mas tiver mais de cem mil acessos diários no meu blog de leitores de todos os lugares do mundo, ainda assim quando eu for dar alguma entrevista, abaixo do meu nome vai aparecer a palavra “blogueiro” e não, “escritor”.
Entendo que o livro na prateleira pressupõe todo um trabalho de seleção pela editora, revisão e aperfeiçoamento. Mas em momento algum isso é garantia de qualidade! Fosse assim, não haveriam obras encalhadas nas livrarias. Aprendi a enxergar o livro de papel como fruto de uma boa rede de influências ou de uma boa quantidade de dinheiro para investir. Os novos autores, que geralmente não dispõem desses recursos financeiros para se bancar ou não contam com apadrinhamentos e indicações, até então estavam condenados a morrerem no anonimato. Hoje, com as possibilidades que a Internet abriu, eles podem mostrar sua produção para o mundo inteiro; e quem ganha com isso são os leitores. Antes, para que eu conhecesse um novo autor era preciso esperar que alguma editora acreditasse no trabalho de um desconhecido para lançá-lo no mercado. Agora não; basta eu procurar no Google.
E não são raros os casos de escritores que começaram na Web e depois conseguem publicar seus livros. É uma reação natural do mercado. Os empresários não podem mais ignorar o sucesso que certos sites têm. E muitos escritores vêm sonhando com isso, chamar a atenção das editoras pelo sucesso de seus blogs; pois elas estão sempre buscando o que é vendável. Afinal, tudo é comercio. Assim, 100 mil acessos diários pode muito bem ser uma garantia de sucesso. Para a editora não interessa lançar uma obra apenas por sua qualidade literária. É preciso um saldo positivo na relação “investimento X retorno”. E é nesse ponto que muitas vezes me questiono sobre o que é esse suposto “selo qualidade” conferido a um autor quando ele publica um livro, uma vez que na mesma prateleira de mais vendidos eu vejo um belíssimo romance de Nei Leandro de Castro e um livro (se é que se pode chamar assim) de Bruna Surfistinha!
Dessa forma, quando estou procurando originalidade e textos de boa qualidade, quase sempre tenho me restringido à Internet. Lá posso achar variedade e diversidade criativa; e tenho a oportunidade de conversar com o autor diretamente, debater seus textos, criticar, elogiar, discutir e aprender. A Internet possibilita esse intercâmbio cultural de forma rápida, direta e isenta de interesses. Muniz Sodré, doutor em Comunicação Social e professor da UFRJ, reconhece que hoje existe um processo de “descentramento cultural do livro, isto é, a perda do monopólio clássico de manutenção da memória e transmissão da cultura.”. O livro já não é mais a única fonte de conhecimento... E muito menos a única forma de se fazer literatura. Um escritor não faz livros. Ele faz Arte, na acepção mais profunda da palavra. Ele traz a reflexão, questiona, incita o pensamento... transforma o cotidiano das pessoas; seja através de um livro, de uma pichação, de um panfleto na rua ou de um e-mail. Isso porque o pensamento não é medido em páginas ou os bites... A literatura não é a fôrma... é o conteúdo, o abstrato que penetra na alma do leitor e, efetivamente, produz as transformações pessoais e sociais, enquanto que o papel é deixado na estante para alimentar as traças.
Então amigo “blogueiro”, não tenha receio em se definir como Escritor; pois o tempo vai fazer com que as pessoas, enfim, entendam que somos escritores, independente de onde gravamos nossas palavras...
Tullio Andrade
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