13.9.09

Dos Quintais da Fazenda Floresta



“A lembrança dos meus é orvalho enluarado / Suavizando o calor do meu peito abrazado.”. No entanto, é pena que a lembrança da autora desses versos agora escorregue por entre os dedos indiferentes da negligência dos seus próprios conterrâneos. Lamentável pecado, que arrasta os norteriograndenses para a escuridão de ignorância e do descaso.

O vilipêndio à obra de Nísia Floresta chega ao ponto de, entre os mais de 6 mil livros da biblioteca pública da cidade que hoje leva o seu nome, haver apenas um único exemplar da autora, sob a alegação de que “os livros dela não são procurados pelos alunos”. Enquanto isso, nas escolas públicas do Município nem mesmo esse derradeiro livro existe.

Mas, apesar disso, contar sua história é mergulhar num universo de paixão, altruísmo e sensibilidade... É desvendar a alma de alguém que não apenas desbravou barreiras e se atirou em suas idéias; mas que viveu, amou e ousou sonhar com uma sociedade mais justa e harmoniosa...

É sentir-se mais orgulhosa de ser mulher!
A pequena Papary de 1810, que viu nascer, num 12 de outubro, a menina Dionísia Gonçalves Pinto, não foi suficiente para o seu idealismo. Ela cresceu e se fez mulher; e com ela cresceram seus ideais. E Dionísia deu lugar a Nísia Floresta Brasileira Augusta, que rompeu os limites de Papary e conquistou divisas e fronteiras com a coragem que só os grandes mártires têm. Mas que manteve seu pé, seu amor e seus princípios morais nos velhos quintais da Fazenda Floresta onde nasceu.

Foram 74 anos de vida; uma vida dedicada à causa dos oprimidos, na qual ela encampou lutas contra a escravatura e pela valorização do indígena. Além disso, ela se tornou a primeira mulher a fincar com brio e altivez a bandeira do feminismo consciente e desafiador, sem temer as palmatórias da opinião pública, que a classificavam como uma “degenerada”. Alcunha que alguns até hoje ainda teimam em lhe dar.

E na terra de degenerados que foi o Brasil em sua origem, Nísia escreveu, nas páginas já amareladas do tempo, o seu nome com a pena que, embora suave, cravou com força e veemência seu traço; inaugurando assim a literatura norteriograndense ao publicar, em 1850, o primeiro romance do Estado: “Dedicação de uma amiga”. Essa obra, juntamente com seus outros 14 livros escritos entre o português, o italiano e o francês, a levaram ao reconhecimento e à homenagem de ser a Patrona da cadeira número dois da Academia Norteriograndense de Letras.

Nísia Floresta, em tempos de extremo machismo e repressão, teve a coragem de gritar a plenos pulmões os direitos que deviam assistir as mulheres ao publicar o primeiro manifesto feminista que se tem conhecimento no Brasil: “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” (1832). Numa tradução livre de “Vindications of the rights of woman”, que “Mary Wollstonecraft” havia publicado em Londres, em 1792, ela, corajosamente, alertava sobre a condição submissa que era imposta às senhoras da época, demonstrando que seu texto foi além de uma simples tradução: “Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens”.

Aos machistas de então restou difamá-la, usando de artifícios retóricos para transformar suas atitudes em exemplos de amoralidade; ao repetirem que uma mulher, que aos trezes anos de idade abandona o marido e casa-se novamente, não pode servir de exemplo para ninguém. Mas Nísia sobreviveu a tudo isso e, inabalável, reafirmou seu amor por Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem teve dois filhos, mantendo-se fiel e leal durante o pouco tempo que puderam estar juntos, antes da morte levá-lo prematuramente aos 25 anos.

Assim, entre as conquistas e tragédias que cercaram sua vida, muitos felicitaram quando Nísia teve que deixar o país para tratar da saúde de sua filha Lívia Augusta de Faria Rocha na Europa. Achavam eles que a distância silenciaria aquela mulher “impertinente”, que servia de “má influência” para as esposas recatadas e submissas que eles tentavam manter. Mas nem mesmo um oceano de distanciamento conseguiu esmaecer sua voz. E os ventos do velho mundo trouxeram os rumores de seus ideais. E até os próprios homens tiveram que reconhecer seu mérito; como fez Auguste Conte, pai do Positivismo, ao apreciar a obra “Opúsculo Humanitário” em 1853.

Mas entre idas e vindas, viagens e palavras, sonhos e lutas, ela viu o espelho envelhecer... Já não eram mais os mesmos fios negros que pendia por sobre seu rosto. Já não era o mesmo rosto que em tempos de juventude ostentava a beleza da mulher potiguar... E a saúde, com o tempo, parecia abandoná-la. E no dia 24 de abril de 1885 em Rouen (França) seus olhos fecharam; e sua boca silenciou. Mas não silenciaram suas idéias, que atravessando o século ressoam até hoje nos ouvidos de toda mulher que se ergue na coragem desafiadora de reivindicar seus direitos.

Sessenta e nove anos depois, enfim, o seu corpo foi trazido da França para o Rio Grande do Norte. E em setembro de 1954 finalmente ela voltou a ser a criança Dionísia, acolhida com carinho por sua terra num derradeiro abraço, guardando-a sob seu chão como um tesouro a ser protegido e reverenciado, embora poucos realmente façam isso.

Os quintais da Fazenda Floresta, que ela se orgulhava de levar em seu nome, sorriram naquele dia ao relembrarem daquela menina que sonhava perdida na contemplação do azul intenso do céu de Papary. O mesmo céu que viu uma chuva de palavras em sua homenagem, gravadas sobre o papel por seu admirador Luís da Câmara Cascudo, cair no dia de seu retorno. Seus olhos já cerrados pelo luto não puderam ver, mas sua alma certamente chorou com a alegria de estar de novo em casa.


Tullio Andrade

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